Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, acompanha um problema que avança silenciosamente em dezenas de cidades brasileiras: os aterros sanitários estão se esgotando, e a maioria dos municípios ainda não tem plano concreto para o que vem depois. Em várias regiões metropolitanas do país, a vida útil dos aterros em operação já é medida em anos, não em décadas, e as alternativas que deveriam estar prontas continuam no papel.
O Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2023. Desse total, cerca de 60% foram destinados a aterros sanitários, estruturas com capacidade finita e cujo licenciamento e construção envolvem processos longos e custosos. Quando um aterro chega ao limite sem solução pronta, a saída improvisada costuma ser a reabertura de lixões ou o transporte de resíduos para aterros distantes, com custos que chegam a inviabilizar o orçamento de limpeza urbana.
Por que os municípios chegam a esse ponto sem alternativa pronta?
O principal erro é tratar o aterro como solução permanente em vez de etapa transitória. Na realidade, gestões municipais sucessivas usam a capacidade disponível sem investir simultaneamente no desenvolvimento de alternativas, seja por restrição orçamentária, seja por falta de planejamento de longo prazo. Quando o problema se torna urgente, o prazo para licenciar e construir uma nova estrutura, que pode levar de três a seis anos, já não existe.
Marcello José Abbud também destaca o problema de governança regional. Isso porque municípios vizinhos que poderiam compartilhar infraestrutura por meio de consórcios frequentemente não chegam a acordo por disputas políticas. O resultado é que cada prefeitura tenta resolver sozinha um problema que seria mais eficiente e barato resolver em conjunto.

O que acontece quando o aterro fecha sem substituto?
As consequências são imediatas e custosas. Isso porque, sem destino adequado, os resíduos se acumulam em pontos de descarte irregular, aumentando a proliferação de vetores de doenças e a contaminação de córregos e mananciais. Municípios que optam pelo transporte de longa distância até aterros com capacidade disponível em outras regiões chegam a gastar duas ou três vezes mais por tonelada do que gastavam anteriormente, comprometendo recursos que deveriam ir para saúde, educação e infraestrutura urbana.
Para Marcello José Abbud, existe ainda o risco de responsabilização legal dos gestores públicos por omissão, uma vez que a Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece obrigações claras de destinação adequada. Prefeituras em situação irregular ficam expostas a autuações, embargos e ações civis que agravam ainda mais o cenário.
Usinas de tratamento como alternativa ao modelo de aterramento
A saída estrutural para o esgotamento dos aterros passa pela redução do volume de resíduos que chega a eles. Na prática, usinas de triagem e compostagem, plantas de tratamento mecânico-biológico e instalações de valorização energética são capazes de desviar entre 60% e 90% dos resíduos urbanos do aterro, prolongando sua vida útil ou tornando desnecessária a construção de novos.
Marcello José Abbud e a equipe da Ecodust Ambiental trabalham no desenvolvimento e na implantação dessas soluções em municípios de diferentes portes, adaptando tecnologia e escala à realidade de cada contexto.
O prazo que os municípios não podem ignorar
Aterros com menos de dez anos de vida útil restante já deveriam ter projetos alternativos em fase de licenciamento. Os que operam com menos de cinco anos precisam de ação imediata. Especialistas como Marcello José Abbud apontam que nunca houve tantas opções tecnológicas viáveis para substituir o aterramento como destino principal dos resíduos. O problema é que essas opções exigem tempo para serem implantadas, e o tempo é exatamente o que está faltando para muitas cidades brasileiras.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
