Para muitas empresas em expansão no Brasil, o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios parece um instrumento reservado a companhias de capital aberto e faturamento bilionário. É essa crença que Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, considera equivocada quando o assunto é FIDC. Segundo ele, o critério que realmente define quem consegue estruturar um fundo desse tipo não é o tamanho do balanço, e sim a qualidade da carteira de recebíveis.
A confusão tem origem histórica. Os primeiros FIDCs do mercado brasileiro nasceram para atender grandes grupos com operações de securitização robustas, e essa imagem inicial ainda molda a percepção de quem procura alternativas de funding hoje. A regulação evoluiu bastante desde então, e o número de gestoras especializadas em estruturas menores cresceu junto com ela.
O mito do FIDC restrito às grandes corporações
Muita empresa desiste da ideia antes mesmo de consultar uma gestora, porque associa FIDC a operações de centenas de milhões em recebíveis. Essa suposição ignora que existem hoje veículos proprietários desenhados sob medida, com estrutura mais enxuta e custo compatível com carteiras menores.
O que pesa na avaliação de uma gestora não é o porte declarado da empresa. Pesa a previsibilidade do fluxo de recebimentos, a formalização dos contratos com os clientes e o histórico de inadimplência daquela carteira específica. Uma empresa de médio porte com recebíveis recorrentes e bem documentados tem, muitas vezes, uma carteira mais elegível do que uma companhia grande com contas a receber pulverizadas e pouco rastreáveis.
O que entra na análise de elegibilidade dos recebíveis?
Antes de qualquer estruturação, a gestora e o custodiante avaliam três frentes: a existência jurídica do crédito, a regularidade da cessão e a rastreabilidade de cada documento que compõe a carteira. Duplicatas escriturais, contratos formalizados e parcelas de cartão tendem a ser mais fáceis de enquadrar do que recebíveis informais ou sem lastro documental claro.

Pedro Magalhães descreve esse processo como uma auditoria de maturidade, não de tamanho. Uma empresa com processos organizados, ainda que pequena para os padrões do mercado de capitais, chega à mesa de negociação em posição melhor do que uma companhia grande com controles internos frágeis.
Como as cotas sênior e subordinada dividem o risco?
A estrutura de cotas é o que torna um FIDC atraente tanto para quem cede os recebíveis quanto para quem investe no fundo. A cota sênior, geralmente destinada a investidores externos, tem prioridade no recebimento e menor exposição ao risco de inadimplência da carteira. A cota subordinada, normalmente retida pela empresa, absorve as primeiras perdas.
Quanto maior a subordinação exigida, menor o risco percebido pelo investidor sênior. Mas o capital que a empresa cedente precisa reter dentro do fundo também cresce. É um equilíbrio calibrado pela qualidade da carteira, nunca pelo porte da empresa. Nas operações que acompanha, Pedro Daniel Magalhães avalia que esse critério tende a favorecer empresas organizadas, independentemente do tamanho do balanço.
Quanto tempo leva para estruturar um fundo?
Não existe prazo padrão, mas o processo raramente é rápido. Envolve diagnóstico da carteira, elaboração do regulamento conforme a Resolução CVM 175, definição da política de crédito e negociação com os prestadores obrigatórios: gestor, administrador e custodiante. Cada etapa exige documentação própria e validação jurídica.
Empresas que já mantêm contabilidade organizada e contratos padronizados avançam mais rápido por essas etapas. As que ainda dependem de controles manuais costumam gastar boa parte do tempo apenas organizando a base de dados antes de conversar com uma gestora.
O que muda quando o critério deixa de ser o tamanho?
Quando uma empresa entende que a porta de entrada para um FIDC é a qualidade da carteira, e não o porte, o investimento em governança financeira deixa de ser burocracia e passa a ser vantagem competitiva. Companhias que organizam seus recebíveis com essa lógica acabam encontrando mais alternativas de funding do que apenas o crédito bancário tradicional, destaca Pedro Magalhães.
Por fim, o efeito prático vai além da estruturação de um fundo específico. Uma carteira rastreável, com baixa inadimplência e contratos claros, abre caminho para negociações melhores em qualquer fonte de capital, dentro ou fora do mercado de FIDCs.
